Parece que nós mulheres estamos fadadas a culpa. Se o parto é rápido, se a mulher empodera-se, se tudo conspira a favor, o mérito é da mulher e de toda a equipe que prestou o atendimento ao seu sonhado parto natural.
Mas se mesmo com a equipe humanizada, com assistência de referência, a mulher não consegue parir, fica nas entrelinhas que a culpa é dela. Seja física, seja emocional, de alguma forma aquela mulher está fadada a ser a culpada pelo não-parto.
Eu acredito sim que a gente tem que lutar para conseguir um parto humanizado. Infelizmente o normal é coisa rara. O natural, tão raro quanto quem só come aquilo que nasce no seu quintal. Não podemos esquecer que somos um produto de nossa cultura.
Carregamos em nossas células histórias traumáticas de partos, somos orquestradas pela força da mídia, pelo peso do inconsciente coletivo que produz uma confiança cega na tecnologia e na medicina e nos faz duvidar de nossos corpos.
Não somos como os animais. Cada vida que cresce em nosso ventre é preciosa e a força da natureza torna-se menor que nosso desejo de querer aquela vida crescendo ao nosso lado. Por este desejo, existe o medo e também a possibilidade de usufruir da tecnologia quando a natureza falha.
E quando é este momento de saber que a natureza realmente falhou, que devemos deixar nos cortar na primavera para ver a vida florescer? Não existe resposta certa. Não existe verdade absoluta. Inevitavelmente vamos lidar com os limites da equipe que nos atendeu, nossos próprios limites. E quando esse limite chega é a hora certa.
Podemos investigar posteriormente, podemos em um próximo parto tentar entender as perguntas que gritam na calada da noite. Mas diante do acontecimento devemos acolher e deliciarmo-nos diante da cria viva e gorducha que mama nos nossos seios.
O limite do momento é único e não há especulação que seja capaz de trazer a luz. Apenas é. Não falo das cesáreas eletivas, não falo do médico bonzinho com altas taxas de cesárea, não falo do hospital que empurra bebês coroados para serem nascidos. Falo dos momentos em que houve realmente a viabilização plena de um parto natural que não acontece.
E mesmo os eventos acima são válidos. Quantas mulheres não fizeram de suas cicatrizes marcas de uma guerra que compraram para a vida? Seja ajudando outras mulheres, seja buscando um novo parto depois de 2 ou três cesáreas, toda experiência é valida.
Não podemos julgar o passado com os olhos do presente. O vivido serve de referência para que possamos buscar outros caminhos. Mas diante do acontecido recente, o fundamental é deixar de se debater no sentimento de incompetência, reverenciar toda a luta e agradecer pela vida que vive nos braços.
Não podemos transformar a humanização do nascimento em uma caça às cesáreas. A gente sabe que a grande maioria delas acontece por falha na assistência, despreparo dos profissionais ou comodidade médica.
É bem verdade que a grande maioria das cesáreas que a gente ouve falar aconteceram desnecessariamente. Mas existem casos em que a opção pela cirurgia é o caminho mais seguro, quando o risco da mesma se torna, para mãe e bebê, menor do que a espera o parto normal.
Geralmente essas cesáreas são intraparto, ou seja, a mulher passou por todas as etapas do trabalho de parto e por algum fator a cirurgia foi necessária.
Quando a cesárea é realizada em trabalho de parto ativo (com avanço da dilatação) significa que o bebê estava pronto para nascer. Todos os hormônios do trabalho de parto ajudam a mãe a ter um vínculo maior com a criança e facilita a amamentação, se comparada a uma cesárea eletiva (agendada por conveniência médica ou escolha da mulher).
Essas cesáreas intrapartos bem indicadas acontecem, em geral, quando a mulher optou por uma equipe humanizada. Uma mulher que sonhou, foi atrás da realização de um parto natural e por um fator que denomino imponderável, precisou transformar a coragem de um parto sem intervenções na coragem de se submeter a uma cirurgia: Permitir-se corta-se no inverno para florescer na primavera.
Sempre fica aquela sensação de nadar e morrer na praia. A vergonha por não ter conseguido. Mulheres que passam por essa experiência deveriam se orgulhar, deveriam saber que são muito corajosas por enfrentarem o oceano das contrações e entregarem-se para o destino de serem auxiliadas para terem a cria nos braços.
São aqueles 15% que preconiza a OMS. Não podemos demonizar a cesárea. Não é ela que combatemos e sim a má assistência que faz com que mulheres saudáveis e bebês imaturos sejam submetidos a um procedimento cirúrgico. E o que é mais triste é saber que muitas destas mulheres queriam um parto normal e foram enganadas por seus médicos.
Hoje meu texto é para aquelas mulheres que realmente criaram um ambiente propício para um parto, que foram além de si mesmas para vivenciarem esta experiência, mas que tiveram que se submeter a cirurgia.
A elas, que se lembrem um verso indiano que diz: quando se tira uma pequena parte da perfeição, o que se tem, ainda é perfeito. Que nunca se esqueçam que às vezes as coisas não são como sonhamos mas isso não retira a perfeição que nela cabe.
Vi no: http://vilamamifera.com